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20 anos depois: o que a morte de Jean Charles revela sobre a escalada da xenofobia global

  • Foto do escritor: Rogério Baptistini Mendes
    Rogério Baptistini Mendes
  • 24 de jul.
  • 3 min de leitura

Vinte anos após o assassinato de Jean Charles, o uso político da xenofobia se consolida como ferramenta de poder na Europa e nos EUA.

Em 22 de julho de 2005, o eletricista brasileiro Jean Charles de Menezes foi morto por policiais britânicos no metrô de Londres, após ser confundido com um suspeito de terrorismo. Vinte anos depois, seu caso permanece um marco no debate sobre racismo institucional, perfilamento racial e a desumanização de imigrantes em democracias ocidentais.

Reproduzo aqui a entrevista que concedi ao site Sputnik Brasil, em que analiso o legado político e simbólico daquele crime. O que mudou? O que se agravou? E por que a xenofobia, longe de recuar, virou estratégia oficial de governos que lucram com o medo?

– Rogério Baptistini
Jean Charles de Menezes
Jean Charles de Menezes

Sputnik Brasil: Jean Charles foi vítima de uma tragédia inevitável ou de um processo social discriminatório?


Rogério Baptistini: O brasileiro Jean Charles de Menezes, cuja morte completa 20 anos, foi vítima do despreparo da polícia de Londres diante da ameaça terrorista. Ao recuperar o contexto do acontecimento, observamos que naquele julho de 2005 o medo havia se espalhado pela capital inglesa por conta dos atentados do dia 7, que deixaram um saldo de 52 mortos e mais de 700 feridos.


Apesar de os quatro autores dos ataques serem britânicos, nascidos ou naturalizados, e terem morrido durante os atentados, o fato de serem jihadistas — extremistas islâmicos — com conexão com grupos como a Al-Qaeda, gerou um ressentimento social generalizado em relação aos árabes e aos muçulmanos em geral. E isso foi determinante para a morte de Jean Charles.


O que a polícia classificou como uma trágica fatalidade, na verdade resultou de uma prática discriminatória conhecida como racial profiling (perfilamento racial), cada vez mais em uso desde então, ainda que as autoridades neguem. Trata-se da abordagem de sujeitos com base em sua raça, cor, etnia ou origem nacional, sem evidência de envolvimento em qualquer atividade criminosa.


Por ser latino e estar numa área considerada de risco, o brasileiro que vivia em Londres foi abordado por policiais em alerta contra suspeitos de prática terrorista, sobretudo se fossem árabes. O foco em um estereótipo o transformou em ameaça e selou o seu destino.


Sputnik Brasil: Houve avanços no combate à desumanização de imigrantes desde então?


Rogério Baptistini: Desde a morte de Jean Charles houve alguma evolução no debate sobre a desumanização dos imigrantes, e o preconceito contra esses grupos ganhou maior visibilidade. Entretanto, os desafios ainda são enormes. Movimentos de extrema-direita crescem em todo o mundo, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, e culpam essas pessoas — estrangeiros em seus países — pelo desemprego, pela insegurança e por diversos problemas sociais. Elas servem de bode expiatório para os males gerados pelo funcionamento de um sistema econômico e financeiro pautado exclusivamente na acumulação, sem qualquer preocupação com a dimensão humana.


Sputnik Brasil: Por que a xenofobia avança com mais força nos EUA e na Europa?


Rogério Baptistini:: São vários os fatores que se combinam, mas creio que um é particularmente importante: a Europa e os Estados Unidos chegaram antes ao desenvolvimento do capitalismo industrial e se beneficiaram da organização do sistema-mundo. É natural que recebam não apenas fluxos de riquezas do resto do planeta, mas também pessoas em busca de oportunidades de vida e de trabalho digno.


A questão é que o atual padrão tecnológico e administrativo da economia gerou um fenômeno generalizado de desemprego estrutural com rebaixamento das expectativas — inclusive no rico hemisfério norte. E isso faz com que imigrantes de pele escura sejam vistos como invasores e concorrentes, responsabilizados pela degradação da vida social. O ressentimento da classe média e da classe trabalhadora é canalizado contra um adversário frágil e se generaliza a xenofobia como estratégia de manipulação política.


Sputnik Brasil: Como os 20 anos da morte de Jean Charles podem ser usados para refletir sobre o tratamento dado aos imigrantes?


Rogério Baptistini: Os 20 anos da morte de Jean Charles, para não passar em vão, poderiam servir como uma oportunidade para nos lembrarmos que a noção de humanidade é construída. E, como toda construção, é frágil e requer atenção constante, pois há os que lucram com a disseminação do ódio e da intolerância, explorando a ignorância e os temores das pessoas. Infelizmente, contudo, não creio que isso vá acontecer.


Um debate que aposte na humanização — e que enfrente e rejeite a engenharia social baseada no racial profiling — entra em rota de colisão com adversários poderosos, que hoje travam uma luta pela hegemonia política em escala global. A chamada Internacional da Extrema-Direita, que une líderes políticos sob a noção ideológica de “guerra perpétua”, cunhada por Steve Bannon, parece apostar na xenofobia como base de um nacionalismo antiglobalista. E isso tem consequências não apenas para os imigrantes.


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