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  • Foto do escritorRogério Baptistini Mendes

29 de março, fundação de Salvador

Entrevista concedida ao jornalista Edison Veiga, da BBC Brasil, por ocasião dos 475 anos de fundação de Salvador, na Bahia.

Tomé de Souza


BBC Brasil - Naquele contexto colonial, o que significava fundar uma cidade deste lado do Atlântico?

Rogério Baptistini - A colônia portuguesa na América, que veio a se tornar o Brasil, não foi marcada por um projeto de povoamento e, tampouco, deixou como legado dos seus momentos iniciais núcleos urbanos estáveis. Salvador é quase que uma exceção.

A literatura especializada nos informa que as terras do novo mundo que couberam aos portugueses ficaram praticamente abandonadas. Não havia nelas nada que interessasse ao comércio europeu, verdadeiro objetivo da metrópole.

Foi a precoce descoberta de metais nobres na América hispânica que motivou a preocupação pela ocupação da terra, até para defendê-la da cobiça de outras metrópoles europeias. A França e a Holanda, efetivamente, chegaram a ameaçar a soberania lusitana.

Assim é que o monarca Dom João III ordena a criação de uma cidade fortaleza chamada São Salvador. O Objetivo é a proteção os domínios da coroa, entregue em toda a sua extensão, de norte a sul, a donatários, submetidos, a partir de então ao governador-geral Tomé de Souza, instalado na nova cidade, nascida capital do Brasil.


BBC Brasil - E já havia essa denominação de capital? O que isso significava?

Rogério Baptistini - Na verdade, as terras portuguesas foram divididas, nos primeiros anos, entre donatários, formando capitanias hereditárias.  Era uma forma de a coroa ocupar o território por meio de terceiros.

Uma capitania correspondia ao exercício do poder de ofício ou de chefia, de mando, que se fazia em nome do rei. Na colônia, em toda a sua extensão, as capitanias eram um poder descentralizado em relação com a metrópole, situada além-mar.

A criação de São Salvador e a designação de Tomé de Souza para o exercício da função de governador geral correspondeu à centralização do poder colonial. Os capitães-governadores -donatários- a partir de então, estavam submetidos a ele.

O ato de instituição do governo geral, de 1548, faz com que o governo a ser instalado em São Salvador, na Bahia, exerça, pela primeira vez, atribuições publicas tendentes à unificação territorial e jurisdicional da colônia.

Está surgindo o Brasil e São Salvador é a sua primeira capital. Uma capital na colônia.    


BBC Brasil - Por que essa região foi escolhida? O que havia nesse local? É interessante que o local não bate exatamente com o ponto onde os portugueses haviam chegado, Porto Seguro.

Rogério Baptistini - A região nordeste, no século XVI, era importante por conta da atividade extrativa de madeira nobre -pau-brasil- e do início da implantação da economia da cana de açúcar -a Bahia era importante produtora de açúcar.  E, também, pela proximidade com a Europa, o que facilitava o fluxo do transporte.

A escolha específica da localização de São Salvador parece ter-se dado por conta das características topográficas e do porto. É preciso lembrar que a cidade nasceu fortaleza!


BBC Brasil - Quem era Tomé de Souza? Ele já tinha uma carreira política em Portugal? O que sabemos sobre sua biografia?

Rogério Baptistini - Sobre Tomé de Souza, Raymundo Faoro, em “Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro”, diz que ele era um fidalgo do rei: “um homem de experiência nos negócios ultramarinos, provado na África e na Índia”.


BBC Brasil - Fique à vontade para complementar com quaisquer informações adicionais e ou correlatas que julgue importantes.

Rogério Baptistini - O autor da primeira história do Brasil, Frei Vicente do Salvador (História do Brasil, 1500-1627), lembra em uma famosa passagem que esta terra não é república, mas cada casa.

Apesar de ter nascido para ser uma capital e situar um poder central em nome da Coroa, a colônia era o poder dos senhores de terra e de escravos, que exploravam os seus domínios como se privados fossem.

Sem contato uns com outros, os senhores rurais exerciam um poder centrífugo por sua relação com o comércio que estava fora do território.

De qualquer forma, há um Brasil que nasce com a fundação de São Salvador.

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