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A extrema-direita ajoelhada diante de Trump: sabotagem à democracia brasileira

  • Foto do escritor: Rogério Baptistini Mendes
    Rogério Baptistini Mendes
  • 19 de jul.
  • 4 min de leitura

Enquanto Trump impõe tarifas e ataca instituições brasileiras, deputados bolsonaristas o homenageiam em moção oficial. O episódio revela submissão e desprezo pelos interesses nacionais.

Joseph Nye
Joseph Nye

No último 9 de julho, no mesmo dia em que o governo norte-americano anunciou a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, 23 parlamentares membros da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados aprovaram uma “moção de louvor e regozijo” ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A proposição foi apresentada pelo deputado Sóstenes Cavalcante, pastor evangélico bolsonarista e líder no Partido Liberal (PL). Em carta divulgada na plataforma Truth Social, o ex-presidente estadunidense não se limitou a sancionar a economia brasileira: fez ingerência direta em assuntos internos, atacou um dos Poderes da República e impôs exigências explícitas — como a imediata interrupção do julgamento de Jair Bolsonaro.


A defesa do ex-presidente, aliás, tornou-se desde então um dos eixos centrais da crise que vem abalando a relação secular entre Brasil e Estados Unidos. Os 23 deputados entusiastas do slogan Make America Great Again (MAGA) — uma bandeira que, para os apoiadores de Trump, representa protecionismo econômico, fechamento migratório e nacionalismo exacerbado — demonstram desprezo pelo fato de que seus mandatos derivam da soberania política brasileira. Esta, por sua vez, é abertamente afrontada pelas declarações de Trump. O comportamento desses parlamentares ultrapassa os limites do que costuma ser rotulado como “polarização política”. O que se evidencia, na verdade, é a incorporação de uma lógica transnacional de lealdade ideológica e estratégica, alinhada à extrema-direita global.


Embora possam ser rotulados, não sem razão, como “vende-pátrias”, os deputados trumpistas da Comissão — alguns dos quais integram, paradoxalmente, a base de apoio do governo — pautam sua atuação parlamentar por valores e objetivos que refletem a agenda da extrema-direita internacional. Nesse contexto, a política nacional torna-se apenas um dos campos de batalha de uma guerra ideológica mais ampla, travada em rede. Essa lógica se escancara quando o governador Tarcísio de Freitas, de São Paulo — um dos estados mais prejudicados pela guerra tarifária — se apresenta como interlocutor direto com o governo dos EUA, reivindicando o exercício de uma “paradiplomacia” à revelia da soberania nacional.


Em Power and Interdependence: World Politics in Transition (1977), Robert Keohane e Joseph Nye demonstraram que as relações internacionais contemporâneas envolvem uma multiplicidade de atores transnacionais — empresas, ONGs, movimentos políticos e até indivíduos — que operam à margem ou em paralelo às estruturas estatais tradicionais. A paradiplomacia é uma extensão dessa lógica, pois permite que entes subnacionais e grupos políticos estabeleçam alianças diretas com potências estrangeiras, sem a mediação das instituições centrais do Estado. No caso em pauta, isso se manifesta em vínculos diretos com a chamada Internacional da Extrema-Direita — uma rede articulada, que tem em figuras como Trump, Milei e Bolsonaro os seus principais eixos. Compartilham estratégias, retóricas e inimigos, operando como uma força transnacional contrária aos valores do multilateralismo, da democracia liberal e da soberania popular.


Esse fenômeno exige uma análise crítica sobre o papel das elites locais, que, ao se alinharem a forças estrangeiras e a corporações transnacionais, reproduzem formas históricas de colaboracionismo. Os setores econômicos que sustentam esses parlamentares e governadores operam com o objetivo de manter seus privilégios, mesmo ao custo da democracia. A estratégia inclui a sabotagem ao governo eleito e o ataque sistemático ao Poder Judiciário. Trata-se de um projeto claro de desmonte da ordem constitucional de 1988, a qual consagra os pilares da soberania, da cidadania e da justiça social.


As mídias já informam que as tarifas impostas aos produtos brasileiros devem vir acompanhadas de outras agressões, todas justificadas pela exigência de suspensão do processo judicial contra Jair Bolsonaro — que responde por tentativa de golpe de Estado. Seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, atua no exterior em articulação com figuras e organizações que operam contra os interesses do Brasil. Isso nos remete à noção de “guerra pela eternidade”, cunhada por Steve Bannon, ideólogo da Internacional da Extrema-Direita. Para Bannon, a cruzada contra o globalismo e o liberalismo decadente transcende as fronteiras nacionais e deve ser travada em todos os campos: da cultura à economia, da internet à política institucional. É esta lógica que conecta Trump, Milei, Bolsonaro e outros expoentes do novo populismo autoritário: eles têm um programa e uma agenda política definidos — e antidemocráticos.


O contexto atual impõe ao Brasil desafios que exigem sobriedade e senso de urgência. A democracia está em risco — assim como a economia e o bem-estar da população. No longo prazo, é imperativo que os democratas invistam em uma reforma intelectual e moral, nos termos gramscianos: uma aposta na educação cívica, na formação de cidadãos críticos, na disputa pela hegemonia no ambiente digital e na emergência de “intelectuais orgânicos” comprometidos com a ampliação dos direitos e da cidadania. No curto prazo, é essencial uma defesa intransigente da soberania frente ao imperialismo algorítmico e às pressões econômicas externas. Urge diversificar parcerias internacionais, reduzir vulnerabilidades estratégicas e adotar uma diplomacia firme em defesa dos interesses democráticos e econômicos brasileiros.


Hoje, a disputa pela hegemonia democrática se dá em múltiplas frentes: no tempo curto e no longo; no espaço interno e externo. Trata-se de uma luta simultânea contra o neofascismo doméstico e contra as novas formas de dominação global protagonizadas pela Internacional da Extrema-Direita.

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