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  • Foto do escritorRogério Baptistini Mendes

A solidão do homem médio e a crise da democracia

Atualizado: 23 de jan.

Grupos religiosos e políticos radicalizados fornecem um espírito de corpo e sentido transcendente para vidas enfrentadas como uma experiência angustiante.

Erich Fromm


O sociólogo e psicanalista Erich Fromm, falecido em 1980, temia que a sociedade de consumo de massas tornasse os seres humanos padronizados, manipulados pelo mercado e pela autoridade política do Estado. Segundo ele, a formação da opinião pública pelo marketing e o trabalho rotinizado propiciado pela tecnologia moderna convergiriam para a desumanização, impondo uma espécie de perda de sentido autêntico à vida.


Homens e mulheres vivendo vidas monótonas, rotineiras, balizadas pelo consumo e pela padronização do gosto, seriam quase como autômatos. Robôs cuja vida repetitiva é vazia e angustiante.


O Self do sujeito contemporâneo, na visão do sociólogo Stuart Hall, não possuiria um cerne estável. Na verdade, por conta das mudanças estruturais que alteram as sociedades modernas, com a fragmentação das identidades anteriormente tidas como fixas -nacionalidade, classe, gênero, sexualidade e raça-, o senso de quem somos e a noção de pertencimento se esvai, levando a uma espécie de identidade a ser construída, desconectada da história e do lugar.


Numa outra linha de argumentação, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, ao analisar a formação das identidades nesta alta modernidade, na qual a incerteza econômica e a concorrência crescem na mesma medida em que a segurança no trabalho desaparece, afirma que vivemos numa sociedade volátil e incerta, líquida, que não oferece estabilidade para a formação do eu. O nosso valor é dado pelas coisas que adquirimos, pelo consumo. E estar fora é angustiante, assim como lutar para tentar permanecer inserido é cansativo e desgastante. Este o motivo de tantos imaginarem o passado como uma espécie de paraíso perdido, alimentando o que o autor qualifica como Retrotopia.

O jornal El País, em 13 de abril de 2016, publicou artigo assinado por John T. Cacioppo e Stephanie Cacioppo, ambos professores e pesquisadores da Universidade de Chicago, especialistas em psicologia e psiquiatria, respectivamente. Na ocasião, os autores alertavam que a solidão havia se tornado uma epidemia e que uma a cada três pessoas se sentiam sozinhas. Mesmo na era da hiper conexão e das redes sociais, a situação assume a característica de um problema de saúde pública.


Na página pessoal de John Cacioppo na internet encontramos a explicação de que os seres humanos, como seres sociais que são, criaram organizações como díades, famílias, grupos, cidades e alianças internacionais. E

“essas estruturas emergentes evoluíram lado a lado com mecanismos neurais, hormonais, celulares e genéticos para apoiá-las porque os consequentes comportamentos sociais ajudaram os humanos a sobreviver e se reproduzir.”

Voltando ao artigo de 2016, o argumento dos especialistas é que pessoas solitárias se sentem mais inseguras, deprimidas e hostis. E o sentimento abrevia a vida. “Os testes biológicos realizados mostram que a solidão tem várias consequências físicas: elevam-se os níveis de cortisol – o hormônio do estresse –, a resistência à circulação de sangue aumenta e certos aspectos da imunidade diminuem”, explicam. Um levantamento de 70 estudos combinados até aquela data mostrou que o risco de morte dos solitários aumenta em 26 %.


Características típicas das contemporaneidade, como a fragmentação do eu (Self), a perda de sentido, o medo e o cansaço e, principalmente, a perda de conexão com os demais -solidão- são fenômenos cuja ocorrência está mais acentuada nas sociedades altamente desenvolvidas, mas as regiões em desenvolvimento não estão imunes ao fenômeno. O derruimento da vida comunitária e a quebra dos laços tradicionais de pertencimento ao grupo são fatos inevitáveis da modernidade e alcançam a todos em graus e níveis diferentes. O resultado é o indivíduo atomizado cuja identidade própria passa ser vivida com um fardo.


A observação ligeira, sem apoio em pesquisa sólida, nos permite conjecturar que certas associações que fornecem um espírito de corpo e sentido transcendente para a existência atraem exatamente por este motivo. Emprestam significado às vidas vazias e enfrentadas como uma experiência angustiante. É o que alimenta o crescimento de certos grupos religiosos e políticos, sobretudo dos mais radicalizados. Exagerando o argumento, a adesão ao nazismo ou à Ku Klux Klan funciona como um alívio para os sujeitos com transtornos de personalidade, socialmente desajustados, vítimas de seus recalques e da dinâmica do mundo em que estão inseridos.


Nos Estado Unidos, a derrota eleitoral de Donald Trump não produziu o resultado terapêutico da regeneração da sociedade. Mais da metade dos eleitores, conforme pesquisa divulgada pelo jornal The New York Times, não confia nas instituições da democracia. No Brasil, a situação não parece ser melhor. Os sinais da doença são visíveis e acometem membros de todos os estratos sociais, inclusive endinheirados que enxergam fantasmas à luz do dia.


Aos democratas verdadeiros cabe o longo e penoso trabalho de recuperação da cultura. Este, não será realizado sem o enfrentamento das causas econômicas e sociais que se manifestam na solidão do homem médio.


BIBLIOGRAFIA:


Erich Froom. Ter ou Ser? Portugal: Editorial Presença, 1999.


John T. Cacioppo e Stephanie Cacioppo. Solidão, uma nova epidemia. In: El País. 13 de abril de 2016. < Solidão, uma nova epidemia | Ciência | EL PAÍS Brasil (elpais.com) > Acesso em 20 de agosto de 2022.


Reid J. Epstein. As Faith Flags in U.S. Government, Many Voters Want to Upend the System. In: The New Yor Times. 13 de julho de 2022. < https://www.nytimes.com/2022/07/13/us/politics/government-trust-voting-poll.html > Acesso em 20 de agosto de 2022.


Stuart Hall. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP& A Editora, 2006.

Zygmunt Bauman. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.


Zygmunt Bauman. Retrotopia. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.

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