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  • Foto do escritorRogério Baptistini Mendes

Felicidade, igualdade e diversidade na política

A infelicidade se manifesta enquanto mergulho desesperado em si mesmo. O contentamento se realiza como escolha moral em favor da realização comum, de todos, dos que ainda não existem, mas virão depois e depois. 

Karl Jaspers

Este artigo se originou de um gentil convite. A editora da publicação sugeriu que eu escrevesse sobre o tema e, desde o momento em que aceitei a tarefa, me pus a pensar sobre a relação entre a felicidade, a igualdade e a diversidade em perspectiva política. Devo confessar que os meus dias não têm sido fáceis desde então.


A ideia de felicidade, aparentemente tão trivial, foi e é assunto de filósofos e de pensadores de diferentes áreas, mas não há uma regra clara sobre como alcançá-la. Essa sensação de contentamento parece reclamar certas condições objetivas, externas a nós, portanto, para ser experimentada. E, em sendo assim, ela varia de acordo com as condições históricas. Ser feliz no século atual, por exemplo, pressupõe condições diversas daquelas que geravam felicidade na idade média. Hoje temos a ciência e a tecnologia. Naquele tempo tínhamos Deus e a igreja.


Felicidade reclama a satisfação de necessidades socialmente criadas, podendo ser associada à situação de plenitude: ser feliz é sentir-se pleno. Nestes termos, parece fácil pensar e alcançar a felicidade. O problema é que, mesmo tendo tudo o que o nosso mundo pode nos oferecer, ainda assim há a possibilidade de sermos infelizes. A felicidade não é um sentimento que possa ser alcançado apenas na relação com o que é externo a nós. Muitas vezes, ela exige um mergulho em nosso ser, estando em contraponto com uma angústia essencial. E qual o motivo dessa angústia que impede a felicidade e nos rouba a sensação de plenitude?


Karl Jaspers, o filósofo solitário da Basiléia, argumentava que o homem é uma figura enigmática, mas condenado à liberdade no agir e no decidir. Tornamo-nos livres quanto mais os outros se tornam livres. E essa liberdade faz parte do nosso ser e do nosso existir. A experiência da liberdade, contudo, não entrega plenitude e felicidade, mas “situações-limite”, em que nos damos conta de que em-si-mesmos não somos nada, de que com as nossas forças não podemos prosseguir. Este “limite-absoluto” seria a fonte de nossa angústia e de nossa infelicidade. 


Superar a angústia e encontrar a felicidade exige um deslocamento em direção ao outro. Na uniformidade de nossas situações existenciais transcendemos o nosso “existir-finito” na humanidade que iguala e realiza para além do tempo. Aqui, a felicidade se associa à igualdade da condição de humanos. Onde a infelicidade se manifesta enquanto mergulho desesperado em si mesmo, o contentamento se realiza como escolha moral em favor da realização comum, de todos, sobretudo dos que ainda não existem, mas virão depois e depois. 


A consciência de nossa limitação, alcançada apenas quando agimos livremente, por contraditório que possa parecer, nos humaniza e nos aproxima. Rompe as nossas diferenças superficiais, epidérmicas, e nos torna companheiros de destino, obrigados a escolher moralmente entre a solidão na diferença e a plenitude no convívio. Entre a pequenez do interesse momentâneo e a grandeza da preparação e preservação do futuro. Entre a pequena e a grande política.


Publicado originalmente em Revista Viverde Natureza. Edição 19. Dezembro de 2010.

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