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  • Foto do escritorRogério Baptistini Mendes

Kahn Yunis e Rafah: o martírio de um povo!

Atualizado: 14 de fev.

Khan Yunis e Rafah são cenários da tragédia de um povo. Os atores são homens, mulheres e crianças da Palestina, árabes em sua maioria.

Gamal Abdel Nasser


Khan Yunis é um antiga cidade localizada na Faixa de Gaza, poucos quilômetros distante do mar mediterrâneo. Registros históricos remetem a sua existência ao século XIV, à vila muçulmana de Salgah, governada por Yunis Ibn Abdallah an-Nawruzi ad-Dawadar, donde o nome Khan de Yunis: hospedaria de Yunis.


Em novembro de 1956, durante a Crise do Canal de Suez[1], forças militares israelenses ocuparam a Faixa de Gaza, então sob controle egípcio, e promoveram o que ficou conhecido como massacre de Khan Yunis. Quase três centenas de civis palestinos -275, conforme reconhece a ONU – foram assassinados em sua terra. A ministra do Exterior de Israel era Golda Meir.


Um trecho de uma carta de 13 de novembro de 1956, do tenente-coronel R. F. Bayard, do Exército norte-americano, observador da ONU, ao comandante em exercício da Organização da ONU para a Supervisão de Tréguas (UNTSO), revela a prática dos militares israelenses em relação aos civis palestinos:


“Sinto que chegou o momento de escrever uma carta a fim de mantê-lo informado da situação como um todo na Faixa de Gaza, da maneira como a enxergamos. É mais do que evidente que os israelenses não querem que os Observadores da Organização das Nações Unidas circulem pela Faixa e relatem as medidas que eles vêm tomando contra a população civil. A partir dos relatórios da URWA e dos poucos incidentes testemunhados pelos Observadores, cheguei à conclusão de que o tratamento dispensado aos civis é injustificavelmente violento, e de que uma grande quantidade de pessoas foi executada a sangue-frio e sem nenhuma razão aparente.
[...]
Muitos soldados israelenses cometeram roubos contra civis, levando relógios, anéis, canetas-tinteiro etc. dos árabes, tanto em suas casas como nas ruas. Todos os veículos e todas as bicicletas foram confiscados. Oficinas mecânicas e metalúrgicas foram desprovidas de suas ferramentas. Várias mulas e cavalos foram levados, e os tecidos, retirados das lojas.
Em várias ocasiões recebi a visita de membros proeminentes da sociedade palestina em busca de ajuda. Os palestinos imploram para que nós, a UNTSO, não saíssemos daqui, e afirmaram que, enquanto permanecermos, seu povo pode ter alguma esperança e fé no futuro.” (SACCO, 2010. Pp. 390-391)

Localidade histórica, cujo primeiro registro remonta à antiga civilização egípcia, Rafah é uma cidade que, em 1982, durante a retirada de Israel do Sinai, foi dividida: uma parte fica na Faixa de Gaza; outra, no Egito. É esta localidade que, um dia antes da carta do tenente-coronel Bayard, conheceu o terror!


Durante a Crise do Canal de Suez, Rafah foi um dos locais iniciais da ocupação israelense. O então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, Moshe Dayan, em seu diário de campanha defendia a importância estratégica do lugar para a vitória contra Nasser[2]. Lá, mais do que lutar contra os soldados do Egito, em 12 de novembro, os militares escolheram os civis palestinos como alvo.


“Londres: Hoje a imprensa publicou diversos relatos dando conta dos incidentes ocorridos na Faixa de Gaza envolvendo refugiados árabes e soldados israelenses. Um jornalista do Daily Express, Donald Wise, escreveu que os soldados israelenses pularam dos caminhões para agredir os cidadãos, e citou um porta-voz da ONU segundo o qual 59 árabes morreram nos últimos incidentes.” (SACCO, 2010. P. 393)

Relatos dão conta de que em Rafah houve, naquele dia 12, o fuzilamento premeditado de civis. Relatórios oficiais indicam 111 mortos. Os palestinos acusam 197 vítimas e 213 desaparecidos.


Khan Yunis e Rafah são cenários da tragédia de um povo. O desenvolvimento do enredo tem como espectadores os poderosos que decidem o destino da humanidade a partir dos gabinetes de entidades políticas e instituições financeiras, cercados de luxo e segurança. Os atores são homens, mulheres e crianças da Palestina, árabes em sua maioria.


Os que operam os interesses de Israel recorrem a uma tradição inventada[3] para justificar a violência dos seus atos. Obscurecem o que deveriam esclarecer, por terem vivenciado: longe de ser natural a todos, o reconhecimento da humanidade do outro é construção.


Os que se julgam escolhidos ou membros de raças superiores continuam a infestar os ambientes.


NOTAS:


[1]A Crise do Canal de Suez iniciou em 26 de julho de 1956 e foi provocada pela decisão norte-americana e britânica de suspender o financiamento para a construção da Barragem de Assuã pelo Egito, como tinham prometido. A medida era uma resposta à política nacionalista do presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser, e à sua aproximação aos países do bloco comunista. Em resposta Nasser nacionalizou o canal, declarou a lei marcial na zona e assumiu o seu controle.


[2] Moshe Dayan. 1967.


[3] Eric Hobsbawm & Terence Ranger (orgs.). 1984.


BIBLIOGRAFIA:


Eric Hobsbawm & Terence Ranger (orgs.). A invenção das tradições.  Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.


Joe Sacco. Notas sobre Gaza. São Paulo. Cia. das Letras, 2010.


Moshe Dayan. A guerra do Sinai. 2ª edição. Rio de Janeiro: Edições Bloch, 1967.

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